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quarta-feira, 23 de novembro de 2011

O egoísmo e o antídoto II


(Algumas críticas dignas de nota foram feitas às minhas despretensiosas divagações no “O egoísmo e o antídoto”; críticas da Srta. Evelyn Erickson, das quais não me autorizo a ignorar. As palavras seguintes são complementárias e não divergem da linha de raciocínio inicial, da primeira exposição).

Acaso o “antídoto” para o egoísmo não seria o maior dos egoísmos? Não levaria à negligência de qualquer outro em prol de um princípio nosso? Não seria a supressão de tudo que importa em prol da superposição de um “eu ideal” que em alguma medida corresponderia a uma demanda desejosa, subjetiva, e, portanto, concernente, também em alguma medida, a nosso eu?
Temos por sabido que nosso intelecto não prescinde da função desta entidade esboçada na virtualidade de nosso corpo material, retomada e reforçada, esculpida enquanto efeitos retificadores – o eu. Não seria o eu o referencial de qualquer que fosse nosso pensamento ou atitude?
Ao pensarmos assim, nada poderia por fim ao egoísmo. Cabe-nos então complementar a definição do termo e dizer de qual egoísmo falo, mais especificamente. Ao tomar a acepção corriqueira do termo, distingamos dele essa instância que denominamos “eu”. Há sempre um eu para qualquer ato humano, há, portanto, um egoísmo fundamental, egoísmo que faz com que nossas sensações, percepções, crenças, entendimento, em suma, nossa subjetividade (seja lá o que os teóricos queiram dizer com isso), seja sempre a “medida de todas as coisas”. No que concerne às necessárias reverberações dessa entidade – o eu – necessária para tomarmos consciência do mundo e de nós mesmos, que nos permite pensar que pensamos, entendamos que fora outrora, por muitos outros, também denominado egoísmo, contudo talvez o termo euísmo corresponda com mais rigor ao que se quer dizer com isso. Ao agir deliberadamente em detrimento da satisfação egóica, estaríamos agindo a partir do eu, porém contra esse sentimento de “ego” do próprio eu. Seria, então, a aniquilação de um “ideal de eu”? Mas, pelo quê? Por outro “ideal de eu”? Este: vazio? Essa torpe divagação abre margem àquela desgastada querela que envolve o idealismo filosófico. Não obstante eu possa reconhecer o paradoxo do antídoto – ser talvez, apesar de absurda, uma solução mundana para o egoísmo, embora em alguns aspectos também o maior possível entre eles –, ele me parece fruto de uma idéia à míngua de força desejante, sem motivação egoísta, entrementes admitida e irrevogavelmente euísta. Talvez duvidemos da possibilidade de levar tal empresa a cabo sem algum desejo. Talvez seja mesmo impraticável. Entretanto, o desejo não precisa ser absolutamente erradicado, talvez a fórmula do antídoto ainda seja válida ao considerarmos a possibilidade de um desejo secundário que, apesar dos pesares, embora drasticamente mais “fraco”, se liga, se deixa a cargo da idéia vazia, o germe-antídoto, e entra em contenda com o continente absolutamente mais imperioso de nossos desejos egóicos. Ainda egoísmo? Talvez (as palavras são imprecisas), mas um egoísmo sem ideal de eu, consciente e preenchido de si apesar de si.


Róbson Henrique, 23 de novembro de 2011.

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