(Este não é um texto para espíritos estreitos)
O egoísmo é esta lei da perspectiva do sentimento, de acordo com a qual as coisas mais próximas são as maiores e as mais pesadas, ao passo que todas as que se afastam diminuem de tamanho e de peso. F.N.
Toda ação intuitiva tem por base o germe do egoísmo. Fazemos questão da presença de um ente amado porque nós amamos; e se fazemos questão do amor do outro é para que ele mais uma vez alimente nosso amor próprio. A amizade - atração cujo fator sexual foi sublimado, canalizado para outros fins - também reverbera egoísmo. Clamamos por amizade porque isso nos faz bem, alimenta nosso amor próprio, nos causa prazer, ou seja, nos é conveniente. Quando isso deixar de acontecer, a amizade já não faz sentido; a não ser que queiramos alimentar nosso amor próprio (através dos olhos dos outros - sendo reconhecido por eles - ou de nosso próprio superego) por vias do altruísmo. É, o altruísmo, o mais hipócrita dos sentimentos, pois esconde sua causa primordial: tendo o prazer pessoal (egoísta) como ganho secundário quando, na verdade, é não apenas primário como também fator propulsor.
Há antídoto para o egoísmo? Não sei, mas se houver, é este: perversão fria, consciente, sem prazer, com dor. Ao voltarmos o intelecto para acionar aquilo que não nos causaria prazer algum, que nos faria desprezíveis aos olhos dos outros, que machucaria ou destruiria aquele ente amado por nós, sentiríamos assim, perversamente, as consequências de uma ação humana tomada como antinatural por nós. Ao afrontarmos nosso desejo, ao irmos de encontro às premissas de nosso egoísmo, ao agirmos, portanto, contra nós mesmos, superaríamos a natureza através da força propulsora do pensamento. Talvez não haja condição mais humana, pois o humano se funda na artificialidade, na perversão quanto ao que é natural; somente muito depois se dará a naturalização das convenções através da institucionalização da vida e da condição humana.
Não digo que esse antídoto seja sempre possível, apreciável, desejável, mas não posso me furtar de pensar.
Róbson Henrique, Natal, 07/11/2011.

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